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CEPAL e OIT alertam que o mercado de trabalho na América Latina e no Caribe terá uma lenta recuperação após a pandemia da COVID-19

Em uma nova publicação conjunta, os dois organismos das Nações Unidas enfatizam que, para sair da crise são necessárias políticas macroeconômicas ativas juntamente com políticas setoriais que promovam o desenvolvimento sustentável com emprego.

10 de novembro de 2020|Comunicado de imprensa

A retomada do mercado de trabalho da América Latina e do Caribe pós-COVID-19 será lenta e demandará muito tempo para que os principais indicadores do mundo do trabalho voltem aos níveis prévios à crise da saúde e mais tempo ainda para poder cumprir com as metas estabelecidas nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), afirmaram hoje a CEPAL e a Organização Internacional do Trabalho (OIT) em uma nova publicação conjunta.

A edição N⁰ 23 do relatório: Coyuntura Laboral en América Latina y el Caribe. La dinámica laboral en una crisis de características inéditas: desafíos de política (novembro de 2020) foi apresentada de forma simultânea em Santiago, Chile e Lima, Peru, mediante uma coletiva de imprensa virtual conjunta liderada pela Secretária-Executiva da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL), Alicia Bárcena, e pelo Diretor Regional da OIT para a América Latina e o Caribe,Vinícius Pinheiro.

O retorno ao nível da atividade econômica pré-pandemia levará vários anos, alertam a CEPAL e a OIT, o que se traduzirá em uma lenta recuperação do emprego. Dessa forma, se mantivesse uma taxa de crescimento médio do produto interno bruto (PIB) regional de 3,0%, só se atingiria em 2023 o nível do PIB que existia em 2019. Entretanto, com a taxa média apresentada na última década (1,8%), o nível do PIB de 2019 só seria alcançado em 2025. E com a taxa média registrada durante os últimos seis anos (0,4%) não seria atingido na próxima década.

Portanto, os organismos da ONU enfatizam que são necessárias políticas macroeconômicas ativas juntamente com políticas setoriais que promovam o desenvolvimento sustentável com emprego. Isso implica promover políticas ambientais que estimulem o emprego e o crescimento, apoiadas por políticas fiscais ativas que fomentem o emprego, com projetos de investimento intensivos em trabalho e com enfoque na sustentabilidade ambiental, que devem ser complementados com políticas industriais e tecnológicas para construir capacidades produtivas nacionais, e aumentar a competitividade. É necessário, também, conceder financiamento e liquidez às micro, pequenas e médias empresas (MPMEs), com prazos mais longos e custos mais baixos.

Além de apresentar cifras sobre a dinâmica do mercado de trabalho nos últimos meses, especialmente nos dois primeiros trimestres de 2020, o relatório conjunto CEPAL-OIT indica que por diversas razões, entre as pessoas que foram fortemente afetadas pela crise da saúde se encontram as mulheres, os jovens e os imigrantes. Especificamente, a segunda parte do documento examina a forma em que os jovens foram afetados na atual conjuntura do trabalho.

De acordo com o documento, em 2020 as economias e o mercado de trabalho da América Latina e do Caribe foram atingidos pela pandemia da COVID-19 de uma forma nunca vista antes, o que resultou na maior contração dos últimos 100 anos com elevados custos econômicos, do trabalho, sociais e produtivos.

Os grupos mais afetados foram aqueles que, pelo tipo de trabalho que realizam, não podem realizar trabalho à distância. Nesse âmbito estão as mulheres, que além de sofrerem pelas quedas do emprego tiveram que se retirar do mercado de trabalho para realizar as tarefas de cuidado e domésticas; os trabalhadores informais, afetados pela proibição de circulação e pela menor capacidade dos domicílios para contratar trabalhadores; os setores relacionados ao comércio, manufatura, construção e serviços (turismo e entretenimento); os trabalhadores jovens que acabam de ingressar no mercado de trabalho por falta de geração de novos empregos; os trabalhadores de menor qualificação em geral em empregos mais informais e com a necessidade de proximidade física; e as MPMEs.

Segundo o relatório, os maiores efeitos foram sentidos no segundo trimestre do ano em que se estima uma perda de aproximadamente 47 milhões de empregos no conjunto da região em relação ao ano anterior. Grande parte das pessoas que perdeu o trabalho não teve oportunidade para uma pronta reinserção no mercado de trabalho ou foi impedida de procurar emprego, devido às restrições de mobilidade e se retirou da força de trabalho. Por isso, as perdas de emprego se expressaram apenas parcialmente em um aumento da desocupação aberta, que passou de 8,9% no segundo trimestre de 2019 para 11,0% no segundo trimestre de 2020.

“A crise da saúde no emprego afetou sobretudo os grupos vulneráveis, aprofundando a desigualdade no mercado de trabalho. As mulheres foram mais afetadas pela perda do emprego e pela queda na participação do mercado de trabalho. Um olhar estratégico deve vincular o desenvolvimento sustentável com a geração de empregos”, destacaram Bárcena e Pinheiro na apresentação do documento.

No que diz respeito ao emprego dos jovens durante a crise da COVID-19, a pandemia tem afetado fortemente o emprego dos jovens entre 15 e 24 anos, impactando particularmente aqueles que estão entrando no mercado de trabalho pela primeira vez. De acordo com os dados disponíveis de quatro países da região, a queda do emprego para as pessoas dessa faixa etária foi de -7,8 pontos percentuais com relação ao segundo trimestre de 2019, enquanto que para os maiores de 25 anos foi de -7,3 pontos percentuais. Da mesma forma, o aumento da taxa de desocupação dos jovens no segundo trimestre de 2020 foi maior do que para os adultos (3,4 contra 1,8 pontos percentuais), apesar da maior queda na taxa de participação (-8,7 contra -6,8 pontos percentuais).

O efeito da crise é maior entre os jovens devido à menor disponibilidade de vagas para o primeiro emprego (menos incorporações) e à menor renovação de contratos temporários e de estágios (mais dispensas), indicam a CEPAL e a OIT. A menor probabilidade de conseguir emprego desestimula sua procura, aumentando o número de jovens inativos que não procuram emprego nem estudam. “Esses longos períodos de inatividade deixam marcas na trajetória do trabalho: mais informalidade e maior exclusão no mercado de trabalho no futuro”, alerta o relatório.

Por tudo o que foi exposto anteriormente, os organismos indicam que se deve promover a inserção dos jovens no mercado de trabalho, combinando formação com aulas com uma etapa posterior de estágio em empresas. Isso deve ser complementado com subsídios monetários para garantir a frequência e a participação dos jovens, bem como serviços de emprego para apoiar a reinserção no mercado de trabalho. Além disso, são necessários programas de formação profissional que facilitem a requalificação ou reciclagem profissional para os jovens que perderam os seus empregos e também as tecnologías digitais devem ser aproveitadas para aumentar a capacidade de aprendizagem e, assim, fechar as brechas digitais entre eles.